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Pubicado em: seg, jun 12th, 2017

Viação Itapemirim vai de potência nacional a empresa endividada; entenda

Atualmente a empresa está endividado, em recuperação judicial. Novos sócios estão na mira da Justiça de São Paulo.

Garagem da Viação Itapemirim em Cariacica (Foto: Bernardo Coutinho/ A Gazeta)

O ano era 1946. O jovem Camilo Cola voltava a Cachoeiro de Itapemirim após lutar na Segunda Guerra Mundial, na Itália, como integrante da Força Expedicionária Brasileira. Com o dinheiro ganho em território italiano, comprou um Ford Hercules e começou a transportar cargas e passageiros. “Se eu for contar tudo, vamos precisar de outro encontro”, brinca Camilo Cola, sobre a origem do império que fundou: o grupo Itapemirim, que atualmente está endividado, em recuperação judicial.

Como os soldados tinham prioridade na compra desses veículos, estimulou colegas de front a comprá-los e colocá-los à venda, ganhando um bom dinheiro. Camilo conta que, em 1948, surgia a Empresa de Transporte Autos – ETA, que tinha um único ônibus entre Castelo e Cachoeiro.

Em 1950, a frota já era de dez veículos. A empresa foi crescendo e, em 4 de julho de 1953, nascia, em Cachoeiro, a Viação Itapemirim Ltda, com 16 ônibus.

“A empresa foi expandindo para o Sul e o Norte do Estado, e, na década de 1960, foi para o Nordeste. Quando entrei, há 42 anos, a Itapemirim fazia a ligação entre São Paulo, Espírito Santo e o Nordeste”, lembra Camilo Cola Filho, o Camilinho, ex-presidente da companhia.

O estilo empreendedor de Camilo Cola levou a empresa a dobrar quando, em 1972, incorporou uma das grandes empresas do país, a Nossa Senhora da Penha. De repente, a operação da Itapemirim alcançava praticamente todo o Sul brasileiro, chegando ao Uruguai.

“Nos anos 1980, chegamos ao nosso ápice. Compramos a linha Rio-São Paulo e nos tornamos a 14ª montadora do Brasil, fabricando nossos ônibus, a marca Tecnobus. A Transportadora Itapemirim, de cargas gerais, também cresceu. Já na década de 1990, entramos no serviço aéreo de transporte de carga expressa. Foi uma época bonita da empresa”, conta Camilinho.

Em seus tempos áureos, a Viação Itapemirim figurava entre uma das maiores da América Latina. Atualmente é uma empresa endividada, em recuperação judicial, e não pertence mais à família Cola, que vendeu o controle acionário da companhia no final de 2016.

Segundo o ex-presidente da empresa, Camilo Cola Filho, a decadência é resultado de uma combinação de fatores: “No início dos anos 2000, começamos a sofrer muito com transporte clandestino, principalmente no Nordeste. A fiscalização era fraca e havia lugares, como Pará e Maranhão, em que o transporte pirata ocupava 60% do mercado”.

Outro ponto foi a queda nos preços das passagens aéreas e incentivos fiscais dados às empresas de aviação, a partir de 2003. Somado a isso, pontua Camilinho, estão leis aprovadas na década que deram gratuidade a estudantes que atestem pobreza e a idosos, por exemplo.

“A margem do setor piorou, e, em 2008, veio a crise internacional”, conta Camilinho.

No entanto, o principal problema que atingiu a empresa foi um impasse na regulação pela Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), que começou em 2008 e só foi resolvido em 2015. As concessões foram substituídas por um modelo de autorização por linhas. A demora, no entanto, provocou queda no faturamento das empresas, enquanto que o crédito ficou mais caro.

“Começamos a vender empresas para pagar outros negócios. Até 2008, o nosso passivo tributário era zero. Com a crise internacional, a empresa deixou de pagar alguns impostos e as multas e juros são altos. Sem certidão negativa, o crédito ficou mais caro e, se as vendas não reagiam, não conseguíamos cobrir”, explica Camilinho.

Em junho de 2015, com a definição da ANTT, a Itapemirim repassou, por R$ 100 milhões, 68 das 118 linhas que operava à Kaissara, empresa que detinha uma linha, cujos sócios eram funcionários da Itapemirim.

Filha de Camilinho, Andréa Cola reconhece que houve problemas na administração dos negócios. Ela conta que tentou profissionalizar a gestão, mas atritos com outros diretores impediram de seguir com o plano. “Tinha muitos atritos profissionais com a diretoria, e decidi sair. Havia diretor que estava na empresa antes de eu nascer. Cheguei a brigar com meu pai”, conta.

Diante de um quadro de dívidas trabalhistas e com fornecedores da ordem de R$ 330 milhões e um passivo tributário de R$ 1 bilhão, a empresa entrou, em março de 2016, em recuperação judicial.

O processo ainda está correndo e resultou, até agora, no negócio com a Kaissara desfeito e na venda do grupo Itapemirim para investidores de São Paulo. Mas esse não é o ponto final da história. Alegando ter sido vítima de um golpe, a família Cola tenta na Justiça retomar o controle da empresa, enquanto que os novos sócios argumentam que as tratativas foram legais.

Camilo Cola é intimado a sair da casa onde mora

Camilo Cola (Foto: Divulgação/Agência Câmara)

Os ex-proprietários da Itapemirim, Camilo Cola e Camilo Cola Filho, foram notificados na última semana para desocupar o platô zero, área da empresa onde está a casa do fundador, atualmente com 93 anos.

O pedido, segundo Andréa Cola, não foi aceito pela Justiça. Isso porque, diz ela, o imóvel é de posse da Imobiliária Bianca, a única das empresas em recuperação judicial ainda em nome da família.

Na notificação extrajudicial, a Viação Itapemirim, que é quem pede a desocupação, informa que foi feito acordo verbal para que o espaço fosse utilizado de forma provisória, enquanto iniciavam oprocesso de mudança. A notificação diz que “entretanto, a utilização provisória e precária dos notificados no imóvel em debate tornou-se insustentável em decorrência das diversas acusações difamatórias inverídicas e litígios insanos extrajudiciais e judiciais”.

A notificação também traz a informação de que, em 4 de abril, foi comunicado o pedido de desocupação por haverem impedido acesso dos funcionários da viação ao depósito de arquivo.

Novos sócios na mira da Justiça

A venda da Viação Itapemirim da família Cola para os novos sócios, os empresários de São Paulo Sidnei Piva de Jesus e Camila de Souza Valdívia, virou uma briga na Justiça. Enquanto os antigos donos os acusam de fraude e pedem a empresa de volta, os atuais controladores se defendem, mostram documentos e alegam que agiram estritamente dentro da lei.

Porém, não é só no Espírito Santo que eles estão envolvidos em acusações de fraude. Em São Paulo, há diversos processos contra os dois. Em Goiás, o administrador judicial de uma empresa que eles compraram aponta suspeitas.

Um dos processos é relacionado à venda da empresa Fábrica de Grampos Aço, de São Paulo. Na ação, os ex-donos Fabio Fabris e Leo Marconi afirmam que os atuais donos da Itapemirim efetuariam o pagamento de passivo trabalhista, fornecedores, impostos e dívidas bancárias. No entanto, eles alegaram que as obrigações não foram honradas e que Fabio e Leo estariam recebendo intimações e citações.

Outro processo que recai contra Sidnei é uma condenação de 2013 a pagamento de indenização por danos morais de R$ 7 mil a José Leonardo Nunes, também em São Paulo. Nunes afirma que descobriu que teve uma empresa aberta em seu nome quando foi fazer uma compra e estava negativado. Ele afirma que sua assinatura foi falsificada por Sidnei e por José Carlos de Souza. Houve apelação, ainda sem resultado.

Sidnei e Camila também compraram a empresa de transporte Transbrasiliana, de Goiás, junto com o empresário Milton Rodrigues Junior, que também é colaborador na Itapemirim. Ele, inclusive, esteve presente em coletiva dos sócios para anunciar investimentos, em abril deste ano.

O administrador judicial da empresa, Luis Claudio Montoro Mendes, diz em um relatório que concordou com a venda das cotas aos sócios da Itapemirim. Em outro relatório, diz que viu algumas suspeitas, como o pagamento de R$ 267 mil em nota fiscal à empresa Delta X, a título de prestação de serviços que, segundo o relatório, não especifica proposta de trabalho.

Na Justiça do Trabalho, Camila e Sidnei respondem a mais de 100 processos relacionados a suas empresas. Já na Justiça de São Paulo, são mais de 50 ações, várias relacionadas à execução extrajudicial ou fiscal, ou seja, cobranças.

Em relação a execuções fiscais, um dos maiores processos é do município de Barueri (SP), que cobra R$ 30 milhões em tributos da Procarta Serviços, de propriedade dos atuais sócios da Itapemirim. Na ação, deste ano, a prefeitura diz que causou estranheza “o fato de uma empresa do porte da ré nunca possuir ativos financeiros em suas contas bancárias para que se pudesse efetuar a penhora on-line”.

Andrea Cola, Camilo Cola e Camilo Cola Filho (Foto: Vitor Jubini/ A Gazeta)

Bloqueio

O administrador judicial da Transbrasiliana, Luis Claudio Montoro Mendes, pede, em seu relatório à Justiça, restrição de venda aos veículos da empresa. A empresa está em recuperação judicial e foi comprada por Camila Valdivia e Sidnei Piva em janeiro.

Isso porque, segundo ele, de 26 ônibus comprados pela Transbrasiliana, em fevereiro de 2017, pelo menos quatro estavam na garagem da Itapemirim. A justificativa é que isso pode prejudicar o pagamento de credores da Transbrasiliana.

Além disso, o administrador afirma que há “confusão” entre a Tranbrasiliana e a Itapemirim, já que são usados a mesma identidade visual nos ônibus, os mesmos guichês, garagens e abastecimento dos veículos nas bases da Itapemirim.

Segundo o administrador, a Fábrica de Grampos Aço foi uma das empresas que recebeu valores – R$ 645 mil – da venda de um dos imóveis do grupo da Transbrasiliana. Mendes diz também que, segundo o Sindicato dos Rodoviários de Marabá, no Pará, havia funcionários em férias sem receber verbas trabalhistas, segundo relatório de fevereiro.

Questionamento
Durante uma coletiva para apresentar investimentos, o empresário Milton Rodrigues Junior apareceu ao lado de Camila Valdívia e Sidnei Piva, o que despertou a desconfiança nos ex-donos da Itapemirim, que o acusam de ser um sócio oculto.

Milton Rodrigues é dono de 14 empresas em Santa Catarina, Rondônia, Goiás, Espírito Santo e São Paulo. Ele não é sócio da Itapemirim, mas tem uma Sociedade de Propósito Específico (SPE), constituída em fevereiro deste ano com Camila e Sidnei, com endereço registrado na sede da Viação Itapemirim, em Cachoeiro.

O outro lado
Por e-mail, os sócios da Itapemirim, Camila Valdívia e Sidnei Piva, esclareceram as acusações. Segundo eles, sobre os processos a que os dois respondem, “o número é considerado ínfimo quando comparado aos processos herdados pelo Grupo Itapemirim” e que “todos os débitos das empresas estão sendo devidamente pagos através de acordos”.

Já em relação à Matrizaria Morillo e à Fabrica de Grampos Aço, eles informam que “essas empresas não fazem mais parte do grupo empresarial”. Sobre o conflito com Fabio Fabris e Leo Marconi, eles dizem se tratar “do pagamento mais o esclarecimento do valor no importe de R$ 4.000.000 em duplicatas frias emitidas pelos antigos sócios e descontadas em banco. A matéria está sob júdice e, sendo reconhecida a compensação, veremos quem deve a quem”.

A Viação Itapemirim também destaca que Milton Rodrigues não é sócio da empresa. Mas, “como ele possui experiência no ramo, atua como colaborador na área operacional da empresa”. Ainda afirma que “a SPE foi constituída para tentar canalizar investimentos”.

Em relação ao processo de danos morais contra Sidnei, informam não se tratar dele, mas possivelmente de um homônimo. Já sobre o débito com a Prefeitura de Barueri, os sócios afirmam ser dos antigos donos da empresa e que já foi parcelados.

Salários atrasados

Ônibus da Viação Itapemirim (Foto: Divulgação/Viação Itapemirim)

Atrasos salariais e incerteza sobre o futuro da empresa. Essa virou, segundo sindicatos, a rotina dos funcionários da Viação Itapemirim. Desde março de 2016, a empresa está em recuperação judicial, em meio a dívidas da ordem de R$ 330 milhões com processos trabalhistas e fornecedores e de R$ 1 bilhão em tributos.

Os funcionários, que já chegaram a ficar com seus salários atrasados por quatro meses em 2016 – o que havia sido regularizado com a transferência para os novos sócios –, voltaram a sofrer com o mesmo problema a partir de maio deste ano. A demora no pagamento atinge principalmente setores como administrativo, manutenção e limpeza, destaca o diretor do Sindiroviários-ES, Uedilson da Vitória.

“Até março, a empresa estava pagando tudo certinho, em dia. Só que, a partir de março, a coisa desandou. Em maio, os salários foram pagos entre os dias 10 e 15. Em abril, também atrasou. Neste mês, a empresa pagou os motoristas no dia 8. Só que o pessoal interno da empresa não recebeu até hoje. Os caras que trabalham na bomba, mecânico, quem limpa ônibus, ninguém foi pago”, afirma.

Além disso, Uedilson explica que o tíquete-alimentação e o vale-transporte desses funcionários também estão atrasados. Segundo ele, demissões em massa não estão acontecendo, mas o atraso de salário deixa os funcionários preocupados.

Em Cachoeiro de Itapemirim, o presidente do Sindimotoristas, Elias Brito Spoladore, conta que a situação não é diferente.

“A informação que a gente tem, conversando com colegas que permanecem na empresa trabalhando, é que eles estão com benefícios relativos a tíquete-alimentação em atraso há dois meses. Tive a informação de que estão pagando por setores, e alguns ainda estão com salários atrasados”, afirma.

A Viação Itapemirim diz que não há atraso de salários. “A nova gestão assumiu a empresa no dia 1º de novembro de 2016, com quatro meses de salários atrasados. Em 20 dias, a nova gestão regularizou os salários e reativou a alimentação dos funcionários”, esclarece em resposta enviada por e-mail.

Demissões
Além dos atrasos nos salários, os sindicatos denunciam que verbas rescisórias dos funcionários demitidos desde o início de 2016 não têm sido pagas. Os casos estão na Justiça.

Segundo o presidente do Sindimotoristas, Elias Brito Spoladore, os 170 funcionários mandados embora em fevereiro de 2016, antes da recuperação, não receberam nada.

Daquela época para cá, com a empresa já em recuperação judicial, ele explica que vários funcionários foram demitidos e não receberam nada.

O advogado especialista em Recuperação Judicial do escritório Hannud & Velloza Advogados, Vitor May Xavier, explica que todas as cobranças de dívidas contra a empresa ficam em suspenso no período de recuperação judicial. “A empresa não precisa pagar as dívidas existentes até a data do protocolo do pedido. As posteriores, ela tem que pagar”, ressalta ele.

Em relação às rescisões “em aberto, tanto do período da antiga gestão, quanto da nova gestão”, diz a Itapemirim, “a empresa está buscando uma rápida solução para o impasse”. A empresa ainda afirma que “a maior parte das demissões ocorridas trata-se de funcionários que não prestavam serviços para a empresa, e sim diretamente ligados às residências dos antigos sócios”.

Grupo diz que auditoria aponta desvios realizados pela família Cola

Os novos sócios da Viação Itapemirim, Camila Valdívia e Sidnei Piva, afirmam que, por determinação da Justiça, fizeram uma auditoria nas contas da empresa, analisando documentos fiscais, recibos, planilhas, extratos, entre outros. Segundo o grupo, foi constatada “uma rede de formas de retiradas diversas da empresa”.

Um relatório foi enviado à reportagem por e-mail. Segundo os sócios, trata-se de “auditoria realizada pela renomada Backer Tily Brasil”.

Mas o relatório não contém menção à empresa de auditoria, e conta apenas com a logo da Viação Itapemirim. Consta no documento que ele “pretende resumir os trabalhos realizados pelas áreas Financeira, Contábil, Fiscal, e envolvimento da Auditoria interna da empresa” e que foi realizado “sob a supervisão da técnica jurídica Camila de Souza Valdívia (sócia proprietária), nomeada em ata Diretora Administrativa/Financeira”.

Camila e Piva afirmam que vão cobrar os valores na Justiça. Os sócios informaram por e-mail que foi encontrado o desvio de R$ 120 milhões chamados de mútuos – nome utilizado para as retiradas de dinheiro da empresa, segundo eles.

“Há ainda contabilizado o saque de R$ 56 milhões em nome dos antigos sócios, estes recursos eram desviados para entrega em espécie através de um documento chamado de CTN, para contas no exterior e através de pagamentos efetuados à holding de nome MC Massad Cola Empreendimentos e Participações Ltda”, diz o trecho do e-mail.

No relatório, são apontadas retiradas feitas em forma de vales de diversos locais do país para Camilo Cola Filho, da Itapemirim e da Kaissara. Os valores apontados não são R$ 120 milhões, e sim cerca de R$ 42 milhões entre 2014 e 2016. Entre os documentos enviados pelo grupo para a reportagem, relativos às transferências para a MC Massad Cola, o valor somado, em 6 documentos de dezembro de 2016, não foi de R$ 56 milhões, e sim de R$ 107.500.

Já a conclusão do relatório de auditoria diz que, após recuperação judicial, “foram retirados valores da empresa de diversas maneiras”, “seja através de DOC, TED ou ainda em moeda corrente a título de atender a pessoalidade dos sócios”, e dá outro número: R$ 15,3 milhões. A conclusão também diz que “além destes valores, existem diversas transferências para empresas que eram do grupo econômico”, que contabilizam outro valor, diferente do que foi informado antes, de R$ 322,6 milhões.

O outro lado
“Eu não tenho acesso às informações da auditoria. Só tenho a minha memória e não acredito que exista isso. Eu não tenho conhecimento do que a auditoria diz. Para ser mais preciso, eu necessitaria ter acesso a essas informações. Essas pessoas levaram a empresa por um valor simbólico, não pagaram nada, dizendo que iam assumir as dívidas e que tinham créditos tributários”, afirma Camilo Cola Filho.

Ele afirma que se há valores que saíram do caixa, há valores que entraram na empresa. “Entraram mais de R$ 300 milhões, só eu coloquei R$ 100 milhões, entre outros valores que foram investidos na empresa.” Camilo diz também que sobre a Kaissara, não pode falar. “Não éramos nós que administrávamos ela. Ela não pertencia ao grupo.”

Quanto à máquina de bilhetes, ele diz desconhecer. “A venda de passagens, hoje em dia, é toda feita por sistema eletrônico. É muito difícil fazer esse tipo de operação que eles estão ventilando. O sistema é muito moderno. Não reconheço que tenhamos feito isso, porque o sistema é seguro. Não vejo fidelidade nas informações apresentadas.”

Ministério Público investiga emissão de passagens

Há cerca de três meses, o representante da administradora judicial do grupo Itapemirim, João Manoel Saraiva, apresentou à Justiça um relatório onde conta ter encontrado documentos suspeitos dentro de uma sala nas dependências da Viação Itapemirim, em Cachoeiro.

Em decisão saneadora do dia 30 de março, o juiz Paulino José Lourenço, da 13ª Vara Cível Especializada Empresarial, afirmou que foram encontrados “uma relação de contrato de câmbio, seis caixas com documentos diversos, planilhas de pagamentos, numerário em moeda estrangeira, uma bolsa preta e quatro equipamentos de emissão de bilhetes de passagens”.

Os sócios da Itapemirim informaram, por e-mail, que as máquinas eram “utilizadas para emitir passagem dublê na empresa, caracterizando o caixa 2”.

O relatório também informa que, no dia 17 de março, “os antigos controladores das recuperandas entraram no local e retiraram o restante da documentação” que não havia sido levado por Saraiva. Por suspeita de “possível prática de condutas criminosas no âmbito das empresas em recuperação”, o juiz decide enviar o material ao Ministério Público Estadual para apuração.

O juiz também afirma, em decisão, que o “Grupo de Apuração Especial de Combate ao Crime Organizado (GAECO), do Ministério Público Estadual, e a Delegacia Fazendária vêm desenvolvendo investigação acerca de fatos relacionados às empresas em recuperação”.

A reportagem pediu, na última terça-feira, 6, mais informações do Ministério Público sobre o caso. Mas até o fechamento da reportagem, não houve retorno.

Justiça desfez negócio da Itapemirim com Kaissara

Em junho de 2015, a Viação Itapemirim passou para a Kaissara 68 de suas 118 linhas e cerca de 40% de sua frota. Antes da operação, a Kaissara tinha apenas uma linha. Ela foi formada em 2009, pelos sócios Mário Sérgio Pereira Jussim e Izaias Alves Lima, ambos funcionários da Itapemirim.

Após o ajuizamento da recuperação judicial, no entanto, o juiz Paulino José Lourenço entendeu, em uma decisão de dezembro, que houve “desvio de patrimônio” na operação de transferência das linhas e apontou indícios do uso de “laranjas”.

A Kaissara foi então incluída na recuperação judicial e foram nomeados como interventores dela os atuais sócios da Itapemirim, Camila Valdívia e Sidnei Piva. Os empresários dizem que, com a auditoria, foi possível perceber que a “Viação Itapemirim e a Viação Caiçara (razão social) sempre foram a mesma empresa, sendo que as duas empresas sempre foram administradas por funcionários, porém, todo comando de retirada de dinheiro para processos que não fossem de custeio da operação vinha diretamente dos sócios”.

O juiz Paulino José Lourenço foi procurado, através da assessoria do Tribunal de Justiça, que informou que “o magistrado não concede entrevista sobre processo em curso”.

Briga pelo controle acionário da Itapemirim

Com dívidas trabalhistas e com fornecedores de R$ 336,49 milhões, além de um passivo tributário de R$ 1 bilhão, o grupo Itapemirim entrou em recuperação judicial em março de 2016. No final do mesmo ano, a família Cola resolveu vender o controle acionário do grupo, que inclui seis empresas (Viação Itapemirim, Transportadora Itapemirim, ITA – Itapemirim Transportes, Imobiliária Bianca, Cola Comercial e Distribuidora e Flecha Turismo Comércio e Indústria) para as empresas SSG Incorporação e Assessoria e CSV Incorporação e Assessoria Empresarial, cujos sócios são Sidnei Piva de Jesus e Camila de Souza Valdívia.

No negócio firmado, os novos sócios não pagariam valores à família Cola, mas assumiriam todas as dívidas do grupo. Camilo Cola Filho, ex-presidente da empresa, afirma que Sidnei e Camila se apresentavam como empresários que tinham R$ 5 bilhões em créditos tributários, o que iria sanar as contas da empresa.

A família Cola, no entanto, acusa os novos sócios de não terem honrado o acordo. Eles alegam que o processo de compra e venda não é válido, já que não assinaram todos os termos do contrato.

A família alega que, em dezembro, o juiz da recuperação judicial, Paulino José Lourenço, determinou a transferência do controle acionário das empresas para o grupo e que o patrimônio construído está ameaçado. No entanto, uma escritura pública registrada em maio em cartório de São Paulo do advogado Marcio Mastropietro, responsável pela confecção do contrato de compra e venda, dá conta de que não houve assinatura dos anexos.

Apenas o controle societário da imobiliária não foi repassado a Camila e a Sidnei por causa do espólio da falecida esposa de Camilo Cola, Ignez Massad Cola.

De acordo com os ex-donos do grupo Itapemirim, assim que o controle acionário foi transferido, a nova gestão teria começado a demitir sem cumprir obrigações, teria deixado de pagar fornecedores e ainda estaria realizando retiradas diárias dos caixas das empresas, através de notas fiscais frias direcionadas a outras empresas deles, como a Delta X, sediada em São Paulo.

Os Cola ingressaram na Justiça, então, com uma ação para retomar o controle acionário da Itapemirim. O processo terá audiência no dia 23 de junho.

“Traídos”
Os Cola alegam terem sido induzidos a entrar no processo de recuperação judicial por dois profissionais antigos da Itapemirim: Anísio Fioresi, na época diretor financeiro, e o chefe do setor jurídico, Rômulo Barros Silveira.

Segundo ele, Fioresi e Silveira agiram de má-fé induzindo a família a uma recuperação judicial desnecessária, isolando diretores e incluindo no processo uma empresa sadia, a Imobiliária Bianca.

O juiz Paulino José Lourenço foi procurado, através assessoria de imprensa do Tribunal de Justiça, que informou que “o magistrado não concede entrevista sobre processo em curso.”

Hoje diretor de novos negócios da Itapemirim, Anísio José Fioresi, que foi diretor financeiro e participou da empresa durante 42 anos na gestão dos Cola, afirmou que não cometeu qualquer ato de traição com a família e diz que não foi mentor da recuperação judicial. Ele afirma que era contra a ideia.

“Todos os documentos, está tudo chancelado pelos acionistas. A decisão da recuperação judicial, eu era contra naquele momento. Não concordava porque a empresa não estava preparada para isso por uma série de questões”, explica.

Segundo ele, a dívida era impagável e a empresa estava dando prejuízo, sem conseguir nem mesmo pagar os juros. “Grande parte da frota, sua maior geradora de receita, estava parada. A empresa não tinha mais inclusive patrimônio para suportar a dívida na escalada que ela estava. A situação foi alertada, apontada e advertida”, diz.

Grupo diz que processo da venda de empresas foi ilegal

Diante das denúncias aventadas pela família Cola, ex-controladora da Viação Itapemirim, os novos sócios do grupo, Sidnei Piva de Jesus e Camila de Souza Valdívia, se defendem, mostrando documentos e afirmam que a transação foi legal.

De acordo com o grupo, a transferência do controle acionário foi realizada por meio de contrato de compra e venda de participações, elaborado pelos advogados dos próprios vendedores Camilo Cola e Camilo Cola Filho. Eles afirmam que toda a documentação para transferência das empresas foi assinada pelos antigos donos.

“Todos os documentos foram assinados. Os anexos também foram apresentados em Juízo. A família, num primeiro momento, chegou a negar a assinatura dos contratos. Depois de comprovada a assinatura, passou a dizer que havia pendência de assinatura dos anexos”, completam.

O grupo informa que a questão virou objeto de discussão na Câmara Brasil-Canadá. “Quando surgiu o primeiro questionamento pelos ex-sócios, os novos sócios, por proteção, requereram perante a Câmara Brasil-Canadá, a instauração de procedimento arbitral visando se proteger de eventual conflito de interesses dos ex-sócios”.

Por e-mail, o grupo enviou um documento com as alterações contratuais levado a registro na Junta Comercial do Espírito Santo, com todas as páginas assinadas por Camilo Cola e Camilo Cola Filho, sem reconhecimento de firma.

O grupo também destacou que, “não fosse a recuperação judicial, a empresa teria perdido todas as suas linhas” porque recebeu uma Declaração de Inidoneidade emitida pela ANTT.

Sobre a denúncia de que os débitos das empresas não estão sendo quitados, os sócios dizem que “os pagamentos são rigorosamente comprovados dentro do processo de Recuperação Judicial”. Os sócios ainda afirmam que as retiradas para a Delta X são prestação de serviço. “A Delta X é uma empresa que compõe o grupo e, como é natural, presta serviço para a Viação Itapemirim e outras empresas visando à redução dos custos”.

Os sócios afirmam que “quando a atual gestão assumiu a empresa no final de outubro de 2016, dívidas se acumulavam aos montes, e os salários dos trabalhadores estavam com quatro meses de atraso. Também não pode ser esquecido que há outros créditos excluídos do regime de recuperação judicial que estão sendo cumpridos pela empresa”.

Nesse ponto, citam como exemplo a renegociação de uma dívida com o Banestes que, segundo eles, afeta uma fazenda da família.

Após as denúncias da família Cola, o grupo processa Camilo Cola Filho por calúnia. “O mesmo não honra o que assina e prefere espalhar fofoca pelo Estado ao invés de assumir que vendeu a empresa, e mais do que isso, assumir que errou em sua administração levando a empresa ao colapso”, afirmam os sócios por e-mail.

Eles também destacaram que “têm um enorme respeito por Camilo Cola, fundador do grupo Itapemirim, e jamais adotarão qualquer medida para despejá-lo. A única intenção é promover a recuperação das áreas dos escritórios”. O grupo ainda esclarece que a área onde fica a casa de Camilo Cola é chamada de área histórica, e não contempla o pedido de desocupação, “inclusive sendo matrículas diferentes”.

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Fonte: G1