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Pubicado em: qua, dez 5th, 2018

Sem gás para cremações, até morrer vira um desafio na Venezuela

Venezuelanos passaram a escolher cremações, que custam cerca de um terço do preço, mas espera pode ser de até 10 dias. Falta de madeira e de metal para caixões e de cimento para os túmulos encareceu enterros tradicionais.
Funcionário aciona forno crematório no cemitério Eden Gardens, em Maracaibo, na Venezuela, em 29 de novembro — Foto: Reuters/Isaac Urrutia

Funcionário aciona forno crematório no cemitério Eden Gardens, em Maracaibo, na Venezuela, em 29 de novembro — Foto: Reuters/Isaac Urrutia

Angelica Vera, do Estado venezuelano de Zulia, no oeste do país, planejava cremar os restos mortais do pai após sua morte por câncer em novembro já que a hiperinflação levou o custo dos serviços funerais para além de suas possibilidades financeiras.

Mas o cemitério não podia oferecer o serviço de cremação pois não havia gás natural, que está em baixa oferta mesmo com as gigantescas reservas energéticas do país membro da Opep.

Ela também não conseguia deixar os restos mortais de seu pai no necrotério enquanto espera pelo fornecimento de gás. Cada dia a mais custa mais de um mês de salário mínimo.

Ela então recorreu à única opção disponível: deixar o corpo de seu pai em uma cova comum anônima, no final do cemitério, uma área tradicionalmente reservada para indigentes.

“Meu pai faleceu e eu não consegui nem fazer um velório porque eu não tinha como conseguir o dinheiro”, disse Vera, de 27 anos, que trabalha como caixa. “O que nós venezuelanos estamos vivendo é depreciativo”.

A decadência da indústria de petróleo da Venezuela atingiu cidadãos por meses com longas filas para abastecer e períodos de falta de gás de cozinha, e agora atinge as famílias que dão adeus a seus entes queridos.

Os venezuelanos passaram a escolher cremações, que custam cerca de um terço do preço de enterros, mas a demanda crescente viu os crematórios com dificuldades para obter gás natural.

Pessoas passam por sepulturas no cemitério Eden Gardens, em Maracaibo, na Venezuela, em 29 de novembro — Foto: Reuters/Isaac Urrutia

Pessoas passam por sepulturas no cemitério Eden Gardens, em Maracaibo, na Venezuela, em 29 de novembro — Foto: Reuters/Isaac Urrutia

Membros de uma dezena de famílias disseram em entrevistas que precisam esperar até dez dias.

Até agora, as covas comuns têm sido usadas em Zulia, onde os apagões e a falta de gás chegam a ser mais extremas. Mas os serviços em decadência em outro estados podem chegar a generalizar a prática.

Alta de preços

A falta de madeira e de metal para caixões e de cimento para os túmulos complicaram os enterros tradicionais. Algumas famílias esperam os crematórios obterem gás propano. Mas a espera também aumenta os custos, com a inflação anual chegando a 1 milhão por cento.

“O custo de cremação cresceu 108 por cento em apenas uma semana”, disse Ana Hernández, de 36 anos, que está se preparando para cremar sua irmã em um cemitério na cidade de Barquisimeto, no oeste do país.

Pessoas participam de cerimônia de enterro no cemitério Eden Gardens, em Maracaibo, na Venezuela, em 29 de novembro — Foto: Reuters/Isaac Urrutia

Pessoas participam de cerimônia de enterro no cemitério Eden Gardens, em Maracaibo, na Venezuela, em 29 de novembro — Foto: Reuters/Isaac Urrutia

A escassez de medicamentos, alimentos e produtos básicos é constante desde que o colapso nos preços do petróleo atingiu a economia socialista da Venezuela em 2014. Cerca de 3 milhões de pessoas emigraram desde 2015, de acordo com as Nações Unidas.

O presidente Nicolás Maduro culpa a “guerra econômica” liderada por adversários políticos com a ajuda de Washington. O Ministro da Informação não respondeu imediatamente por um pedido de comentário sobre as cremações.

Gladys González, de 52 anos, uma advogada na segunda maior cidade venezuelana, Maracaibo, passou quatro dias esperando para cremar sua mãe, que morreu aos 72 anos após não ter conseguido antibióticos para tratar uma infecção estomacal.

“Ninguém merece tanto sofrimento”, disse ela no cemitério de Maracaibo.

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Fonte: Reuters/G1